Seja bem-vindo a este espaço de leitura e aprendizado. A crônica que você encontra nesta página, intitulada O Elevador da Vaidade, é muito mais do que um relato cotidiano; é uma lição de vida sobre as complexas relações humanas.
Este material foi preparado pensando em quem valoriza tanto o conteúdo quanto a forma. Veja por que ele é especial:
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Outro dia, no elevador do prédio, presenciei uma cena que explicaria tratados inteiros de filosofia moral — se Aristóteles morasse no 702 e usasse chinelo de dedo.
Dona Lúcia, do 804, entrou primeiro. Bolsa grande, óculos escuros e um ar de quem tinha acabado de “vencer na vida”. Logo atrás veio Cláudia, do 803, especialista em perceber promoções alheias antes mesmo de o RH avisar.
— Elevador rápido hoje, né? — disse Cláudia, sorrindo com todos os dentes, inclusive os metafóricos.
— Ah, quando a gente está com pressa… — respondeu Dona Lúcia, num tom misterioso, como quem carrega segredos e talvez uma escritura nova na bolsa.
O silêncio que se seguiu tinha CPF. Era a inveja, acomodada entre o terceiro e o quarto andar.
Na semana anterior, correra pelo prédio a notícia de que Dona Lúcia viajaria para a Europa. “Assim, do nada”, como observou Cláudia, que há três anos planeja ir a Cabo Frio e ainda compara preços de estacionamento. Desde então, cada passo de Dona Lúcia soava como trilha sonora de superprodução.
— Vai ficar quanto tempo fora? — perguntou Cláudia, casualmente casual.
— Ah, coisa simples… Paris, Roma, talvez uma passadinha em Lisboa. Nada demais.
Nada demais. A expressão preferida de quem sabe que é demais, sim.
Foi nesse momento que percebi: a inveja não chega batendo panela. Ela vem em forma de comparação silenciosa. Cláudia começou a recalcular a própria vida ali mesmo, entre o quinto e o sexto andar. O azulejo do elevador pareceu mais opaco. A bolsa dela, menos interessante. Até o cabelo perdeu volume.
Mas a história não termina aí, porque a vida gosta de equilíbrio dramático.
Dois dias depois, Dona Lúcia passou a postar — discretamente, claro — fotos das malas abertas na sala. “Preparativos”, dizia a legenda. Depois, uma foto do passaporte. “Gratidão.” Em seguida, uma enquete: “Qual look combina mais com a Torre Eiffel?” Era menos viagem e mais campanha publicitária.
No corredor, comentou-se que talvez ela estivesse “um pouco exibida”. Comentou-se também que talvez houvesse “gente com inveja”. Cada lado apontava o dedo com a serenidade de quem segura um espelho.
E então aconteceu o inevitável: o voo foi cancelado por problemas técnicos. Dona Lúcia voltou para casa com as malas intactas e uma conexão perdida em Guarulhos. No dia seguinte, encontrou Cláudia novamente no elevador.
— Ué, não viajou? — perguntou Cláudia, com a delicadeza de quem oferece sal na ferida.
— Mudança de planos. Europa fica para depois — respondeu Dona Lúcia, tentando parecer filosófica, mas claramente fazendo contas mentais.
O elevador subiu em silêncio. Dessa vez, não havia inveja ali dentro. Havia algo mais democrático: um certo alívio mal disfarçado.
Foi quando percebi que ambas estavam presas ao mesmo fio invisível. Cláudia sofria porque comparava. Dona Lúcia precisava ser comparada para se sentir plenamente embarcada — mesmo sem sair do chão. Uma dependia do que não tinha; a outra, do olhar da que não tinha.
No térreo, a porta abriu. As duas saíram com passos quase sincronizados. Nenhuma mencionou Paris. Nenhuma mencionou cancelamento. Falaram do calor, do preço do condomínio, da vida possível.
Talvez a sabedoria more justamente aí: em viajar quando dá, em sonhar quando cabe, e — principalmente — em não transformar o corredor do prédio em passarela moral.
Porque, no fim, entre a cobiça e a soberba, o elevador sempre para no mesmo lugar: o andar da convivência. E ali não adianta mala cara nem comparação parcelada — todo mundo desce junto.
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