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Exemplo de Crônica:
A BOLHA DAS FUTILIDADES

Era uma terça-feira de manhã, daquelas em que o café já começava a perder o efeito antes mesmo de esquentar a cadeira. No entanto, a motivação estava lá: eu tinha nas mãos um projeto grandioso. Um livro. Não qualquer livro, mas o relato de vinte anos de experiência naquela empresa. Vinte anos de histórias, aprendizados, quedas e retomadas. Finalmente, estava dando forma a algo que poderia abrir portas, quem sabe até mudar minha trajetória. E ali estava eu, focado, deslizando as mãos pelo teclado, quase sem respirar para não quebrar o fluxo de ideias.

Mas eis que, do lado, começa o ritual.

— Olha aqui, cara — diz o meu colega, com aquele sorriso bobo de quem acabou de descobrir algo "incrível" no celular.

Eu não respondo. Penso que, se não der atenção, ele vai entender que estou ocupado. Continuo digitando, as palavras fluindo, o raciocínio encaixando… até que a voz volta, como uma pedra atirada na tranquilidade do meu lago mental.

— Sério, olha isso aqui! Muito engraçado!

Levanto os olhos por um segundo, não querendo ser grosseiro, mas também sem demonstrar muito interesse. Ele sorri como quem ganhou um prêmio: conseguiu me tirar do foco. O vídeo? Uma bobagem qualquer. Gente dançando, fazendo alguma piada sem graça, algo que, sinceramente, eu não saberia dizer o que agregava ao universo. Volto para o meu texto, mas agora o fio da meada já começa a se enrolar.

Acontece de novo e de novo. Cada nova interrupção é uma pedrada no castelo que tento construir com esforço. Me pergunto: ele não vê que estou concentrado? Que estou criando algo sério? Será que ele acha que um vídeo sem conteúdo e um projeto de vida estão no mesmo nível? A impressão que tenho é que ele tenta, de propósito, me tirar do rumo. Talvez seja porque o livro, se der certo, pode mudar meu destino. Pode ser que eu consiga algum reconhecimento, uma promoção, quem sabe até uma nova fase de vida. E ele? Parece satisfeito em colecionar distrações vazias, como se quisesse que todos ao redor estivessem no mesmo barco furado.

A verdade é que nunca pedi nada a ninguém para escrever o livro. Não envolvi colegas, não pedi ajuda. O trabalho é meu, a responsabilidade é minha, e o que quero é seguir em frente, sem distrações. Mas parece que, para ele, existe uma necessidade quase desesperada de puxar os outros para o mesmo buraco de superficialidade em que se encontra. O que será? Medo de ficar para trás? Incômodo de ver alguém tentar algo maior?

E, enquanto esses pensamentos me consomem, ele, como se fosse uma criança, volta com mais um meme, mais um vídeo, mais uma futilidade que não leva ninguém a lugar nenhum. E eu? Eu tenho que lutar, a cada notificação que ele me empurra, para manter a cabeça onde ela deve estar: no futuro que estou tentando construir, no livro que pode ser meu passaporte para algo maior.

Olho para ele, agora rindo de uma piada que, sem dúvida, esqueceu segundos depois. Por dentro, sinto uma mistura de pena e irritação. É o fim da picada, penso. O fim da picada ter que dividir o mesmo espaço físico, a mesma rotina, com alguém que se contenta em ser um fantoche da própria falta de ambição. Mas é isso. Ele está lá, tentando me puxar para a bolha dele. Eu? Eu continuo aqui, tentando escrever o meu caminho para fora dela.

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