Exemplo de Crônica:
DEBATENDO COM FANTASMAS
Tem um camarada no trabalho — vamos chamá-lo de Sérgio — que é, no mínimo,
uma figura curiosa. Sabe aquele tipo de pessoa que, antes mesmo de você terminar de formar um pensamento,
já tem uma tese inteira preparada para discordar? Pois é. Sérgio é esse cara.
Basta eu dizer algo simples, algo do tipo “Sérgio, acho que poderíamos revisar esse
relatório”, e pronto, ele já aciona uma espécie de metralhadora verbal.
Começa um discurso tão elaborado e minucioso que, se fosse transcrito, encheria páginas.
Páginas, no plural. E, detalhe: ele discorda veementemente de algo que eu nem cheguei a dizer.
A cena se repete várias vezes ao longo do dia. Eu mal começo a frase, e lá vem
ele. “Você está errado, porque o contexto global da empresa não permite uma
revisão nesse momento, aliás, a própria noção de revisão
é subjetiva, e eu poderia te citar pelo menos três teorias administrativas que contestam o
que você está propondo.” Ele respira fundo, mas continua. A cada pausa, eu tento
encaixar uma palavrinha, uma vírgula que seja, mas é inútil. Ele não está
falando comigo, está debatendo com a projeção que criou de mim, uma versão
fictícia, exagerada e, claro, completamente equivocada do que eu penso.
Às vezes me sinto como um espectador assistindo a uma peça em que eu deveria ser o ator
principal, mas fui jogado para os bastidores. Fico ali, quieto, assistindo o Sérgio enfrentar esse
espantalho imaginário, essa caricatura do que ele acha que eu sou. Ele se agita, gesticula,
invoca referências que jamais ouvi falar. E o mais fascinante é que, ao final de seu
monólogo, ele sempre tem uma expressão de vitória. Como se tivesse vencido uma
batalha intelectual gloriosa. Mas a questão é: qual batalha? Eu nem mesmo lutei!
É engraçado porque, na maioria das vezes, eu nem terminei de expor minha ideia.
Sérgio já partiu para o ataque, erguendo bandeiras, lançando teorias e, claro,
discordando. Discordando de algo que eu nunca disse. Parece que ele não dialoga, mas trava
batalhas internas com essas versões alternativas de mim que só existem na cabeça
dele. É como se cada vez que eu abro a boca, ele ouvisse apenas o início de uma frase e,
no meio do caminho, trocasse o canal. De repente, ele já está discutindo um outro tópico,
com outra pessoa — ou melhor, uma sombra minha, distorcida pelos filtros da imaginação dele.
Outro dia, por exemplo, comentei de forma inofensiva: “Sérgio, estou pensando em mudar o
formato da planilha.” Não deu outra. Ele desandou a falar sobre como eu estava querendo
revolucionar todo o sistema de relatórios da empresa, que era um absurdo mudar algo que
funcionava há anos e que eu, claramente, não entendia a importância histórica
daquela formatação. Tudo isso, sem que eu tivesse terminado de explicar que só
queria mudar a cor das células.
A essa altura, eu já entendi que Sérgio não quer conversar. Ele quer vencer debates
— debates que, aliás, ele mesmo cria. E eu fico ali, entre perplexo e divertindo-me,
ouvindo-o refutar argumentos que eu nunca fiz, desconstruir raciocínios que eu sequer cheguei a
pensar. No fim das contas, talvez ele precise mais de um bom público do que de um bom interlocutor.
Eu? Eu só sento e assisto, deixando Sérgio duelar com suas próprias versões
imaginárias de mim. Afinal, em discussões com fantasmas, o melhor é deixar o vento soprar.
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