Exemplo de Crônica:
O TROCO DA PACIÊNCIA
Era mais um dia comum de atendimento no correspondente bancário. A rotina já
estava tão mecanizada que, às vezes, eu me perguntava se o tempo corria diferente
ali dentro. O relógio na parede parecia enguiçado, e a fila de clientes parecia
crescer em câmera lenta. Até que chegou ele. Um senhor de meia idade, com passos
lentos e rosto franzido, estendeu uma conta de energia elétrica no balcão.
O valor era quase simbólico: R$ 13,75.
Ele tirou do bolso uma cédula de R$ 20,00, amassada, como se tivesse passado por muitos
bolsos antes de chegar ali. Fiz as contas rápidas, e o troco deveria ser R$ 6,25.
Só que eu não tinha moedas, nem cédulas menores que R$ 5,00. A gaveta
estava faminta de troco, e eu sabia que isso significava problemas.
"Senhor, o senhor teria R$ 3,75 trocado?", perguntei, tentando disfarçar
o incômodo. Já sabia que a resposta provavelmente seria negativa, mas perguntei
por hábito, quase como quem acende a luz sabendo que a lâmpada queimou.
"Não tenho", respondeu ele de pronto, com aquele tom que já
anuncia impaciência.
Eu suspirei internamente. Olhei de novo para a gaveta do caixa, apenas duas cédulas
de R$ 5,00 ali, solitárias como quem sabe que vai dar dor de cabeça.
Aí veio o dilema: ou eu dava R$ 5,00 de troco, ao invés dos R$ 6,25 corretos,
ou ele simplesmente não pagava a conta.
Expliquei a situação, da forma mais polida possível: “Olha, senhor,
infelizmente só tenho notas de R$ 5,00. Então, ou o senhor aceita o troco de
R$ 5,00 ou... bom, não posso completar o valor exato.”
A expressão dele mudou. Era como se um furacão estivesse se formando ali,
entre a conta de luz e a minha gaveta de troco. Ele se ajeitou, cruzou os braços
e lançou a sentença que eu já esperava:
“O problema é seu, não meu! Eu quero o meu troco certo.”
Ah, aquela frase. O “problema é seu” que todo atendente conhece bem.
Foi como um estopim. Naquela hora, todo o peso das cédulas erradas e das moedas que
nunca aparecem desceu sobre meus ombros. Claro que era meu problema, ou melhor, era o
problema da empresa para a qual eu trabalhava, mas naquele momento parecia pessoal.
Tomei um fôlego e, sem nem pensar duas vezes, disparei: “Mas se o
senhor não pagar, de quem vão cortar a energia? De mim?”
A frase ecoou no ar, mais ousada do que eu tinha imaginado. Uma parte de mim
queria imediatamente puxar de volta as palavras. A outra parte, aquela já
cansada das minúcias diárias do atendimento, estava aliviada.
Por um segundo, o cliente ficou imóvel, olhos arregalados, surpreso com a
minha resposta. Acho que ele não esperava essa ousadia de um atendente.
Mas o fato é que a luz que ia cortar não era a minha.
Ele me olhou por mais alguns segundos, respirou fundo e, com uma mistura de
irritação e resignação, aceitou o troco de R$ 5,00.
Pegou a cédula, enfiou no bolso com certo desdém, e saiu sem dizer
mais nada.
Fiquei ali, por um instante, olhando para a porta que ele acabara de atravessar.
O relógio na parede finalmente parecia andar de novo.
Eu sabia que o problema não era exatamente meu, mas naquele momento,
senti que, por um breve segundo, tinha ganho a pequena batalha de um dia comum no
balcão.
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